Infecção do Trato Urinário (ITU)

A infecção do trato urinário (ITU) é um importante problema na infância, representando 7% dos casos de infecção febril nos lactentes até 3 meses de idade, e chegando até a 20% no sexo masculino nesta mesma faixa etária. A ITU febril corresponde à infecção urinária com presumido acometimento renal e, portanto, é denominada pielonefrite. Apesar da sua relevância e prevalência, a ITU febril é muitas vezes mal diagnosticada e inadequadamente investigada, levando ao maior risco de complicações como hipertensão arterial, cicatrizes renais e doença renal crônica.

 

O diagnóstico incorreto também é prejudicial aos pacientes pediátricos, uma vez que os expõe a investigações desnecessárias e a exames muitas vezes invasivos.

 

A urina tem como característica a ausência de germes (bactérias e fungos) e para isso depende do adequado fluxo urinário pelas vias urinárias, assim como do bom funcionamento intestinal. Dessa forma, duas possíveis causas de ITU são a malformação do trato urinário e a constipação intestinal, que impedem de alguma forma a eliminação completa da urina.

 

O ultrassom pré-natal é hoje fundamental no diagnóstico precoce das malformações em geral, inclusive as renais. No entanto, nem sempre o diagnóstico pré-natal é feito e a observação clínica pode ter grande importância na identificação da doença, seja ela uma malformação ou uma infecção urinária. Um sinal precoce e de fácil observação é o jato urinário nos meninos, que deve ser forte e contínuo. Um jato urinário fraco e intermitente (gotejante) deve ser rapidamente investigado devido ao elevado risco de associação com malformações.

 

Sinais de alarme para ITU:

  1. Febre sem causa definida, principalmente em lactentes menores de 3 meses;
  2. Baixo ganho de peso e irritabilidade em lactentes;
  3. Redução na quantidade diária de urina, e alteração de características como cor e odor;
  4. Dor ao urinar, aumento da frequência urinária e perdas urinárias não habituais.

Fatores de risco:

  1. Crianças menores de 1 ano;
  2. Constipação intestinal;
  3. Doenças neurológicas associadas a mal funcionamento da bexiga, como por exemplo a meningomielocele;
  4. Malformações do trato urinário: refluxo vesico-ureteral, obstruções uretrais, válvula de uretra posterior, entre outros;
  5. História familiar de doença renal crônica ou malformação de trato urinário.

O diagnóstico da ITU deve ser feito com coleta adequada da urina por sonda uretral enquanto não houver continência urinária e a partir de então por jato urinário médio, sendo essencial a realização de urocultura (exame que avalia o crescimento de bactérias ou fungos) para sua confirmação. O saco coletor, método de coleta de urina comum em crianças menores de 2 anos, só deve ser considerado se não evidenciar alterações na urina coletada, caso contrário, deve ser colhida nova amostra por sonda uretral para o diagnóstico de certeza. Após o diagnóstico adequado, o paciente deverá ser acompanhado pelo pediatra ou pelo nefrologista pediátrico e, no caso de infecções associadas a febre, é importante que seja mantido em uso de antibiótico profilático, uma vez ao dia, até que o diagnóstico de malformação seja descartado. A investigação inclui ultrassom de rins e vias urinárias, uretrocistografia miccional e cintilografia renal (DMSA e DTPA), variando de acordo com cada caso.

 

O manejo adequado da infecção urinária é fundamental na prevenção e no controle das doenças renais. Muitas vezes a identificação do problema não é fácil e por isso é importante aprender a reconhecer os sinais de alarme e os fatores de risco. Reconhecer o problema e prevenir recorrências é a melhor forma de garantir às crianças um desenvolvimento adequado e rins saudáveis.

 

Dra. Paula Ribeiro Gontijo

Médica Nefrologista Pediátrica (CRM 153.679) da Clínica do Rim e Hipertensão (Unidade I-Taquaral, Unidade II-Centro Médico, Unidade III-Valinhos).

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